A Educomunicação

“A educação tradicional olha para essa área como algo que, às vezes, pode estar ameaçando a sua ortodoxia; e a comunicação olha para esse campo como algo pobre, algo de gente que não está no mercado.” (Ismar de Oliveira Soares)

A educomunicação é mais do que uma tendência de se juntar a comunicação e a educação para fazer emergir uma nova ciência. É uma necessidade que surgiu dos movimentos sociais e na busca por organização da sociedade civil, tendo como meta a construção da cidadania. Segundo o professor Ismar de Oliveira Soares, a educomunicação é um campo de convergência de todas as áreas das ciências humanas.

É um conceito novo, mas que é originário de experiências como as de Paulo Freire junto às ligas camponesas de Pernambuco nos anos 50, os “circulos de cultura”. Essas experiências de educação popular com forte interface na comunicação foram fundamentais à toda concepçção pedagógica de Freire e ganham força de novo a partir dos anos 70. Atualmente, produz resultados extraordinários em projetos culturais, socioeducativos e ambientais por todo o Brasil e em outros países.

A educomunicação pressupõe a utilização de práticas comunicativas em estruturas educadoras formais e/ou informais. Visa participação, articulação de gerações, setores e saberes, integração comunitária, reconhecimento de direitos e democratização dos meios de comunicação com o maior acesso popular às pautas, à produção e à gestão da comunicação pelos canais massivos. As redes de comunicação presenciais e virtuais, e a interação entre elas configuram, no processo cultural vivo, os "ecossistemas comunicativos".

Como suporte da construção desse processo, temos a utilização pedagógica dos meios de comunicação. Mas a comunicação, na perspectiva educomunicadora não se reduz à educação para a apropriação dos meios. A utilização do audiovisual, rádio, internet,etc, integrada às formas face-a-face de comunicação, com o teatro, rodas de histórias, etc, mobilizam e mantêm a animação do sistema.

A comunidade em que se processa um movimento de educomunicação é estimulada a buscar novos conhecimentos, descobrir seus talentos, lutar pelos seus interesses, reconhecendo na mídia o que é bom e o que não.

Ainda segundo o prof. Ismar Soares, há algum tempo, o comunicador achava que o educador não tratava de assuntos interessantes e, por seu lado, o educador estava mais preocupado em "fiscalizar" o trabalho dos jornais. Hoje, a comunicação e a educação são áreas afins.

Para compreendermos a amplitude do tema Educomunicação e sua aplicabilidade e contato com o socioambientalismo, é importante elucidar as diferentes acepções com que tem sido entendido por pesquisadores e práticos:

a) É um campo do conhecimento - epistême. Em atividades de pesquisa, produção de conhecimento e formulação de diretrizes filosóficas de projetos e programas socioambientais.

b) Refere-se à educação para a recepção crítica dos conteúdos da comunicação de massa – no exercício da seletividade na escolha da programação dos meios e emprego educativo dessas tecnologias – alfabetização e educação mediática, o que nos EUA se identifica como “media literacy”.

c) É promoção de “ecossistemas comunicativos” 1 a partir do espaço educativo. O virtual e o presencial se articulam em teia educativa baseada nos encontros, fortalecimento de elos, comunidades interpretativas e de informação/formação. Nesse aspecto, a experiência brasileira ainda focaliza o espaço da escola formal como centro irradiador do processo educomunicativo. A educomunicação, neste caso, implica na revisão das relações comunicativas e de poderes entre direção, professores, pais e alunos. Cabe-nos o desafio de, no âmbito da educação ambiental não-formal, repensar a promoção desses “ecossistemas”.

d) Corresponde ao movimento de gestão participativa dos meios de comunicação, democratização dos sistemas e defesa do direito à comunicação. Portanto, existe enquanto campo de intervenção social . Segundo Ismar Soares, professor do NCE/USP (2004), “descobriu-se que, há pelo menos trinta anos, uma nova prática comunicativa vem sendo gestada no seio da cultura contemporânea, levando pensadores como Paulo Freire e agentes sociais como Herbert de Souza, o Betinho, a dar à comunicação intencionalidade educativa a partir de um compromisso social definido: garantir a cada cidadão o acesso e o uso democrático dos recursos da comunicação, tendo como meta a ampliação da capacidade expressiva das pessoas, independentemente da condição social, grau de instrução, ou inserção no mercado, garantindo que o postulado que defende o 'livre fluxo' da informação seja globalizado, superando a meta liberal de se garantir a 'liberdade de expressão' tão somente aos que detêm controle sobre os sistemas de meios de informação. É a partir desse novo contexto que definimos a Educomunicação como um campo de intervenção social”.

e) Diz respeito aos processos formativos de habilidades comunicativas.

f) É a compreensão educativa da comunicação social. A partir da percepção do papel formador dos conteúdos dos meios de comunicação de massa onde, muitas vezes, predomina a disseminação de valores de consumo insustentável, entre outros problemas, e a falta de uma perspectiva educativa na relação com seus públicos, esta dimensão compreende todo o esforço de ver aumentado o valor educativo na programação, o tempo de programação disponibilizado com esse fim e os cuidados mesmo com a programação não dirigida para esse objetivo, contemplando-se a transversalidade do processo educativo que pode caber em toda essa programação.

1 - O conceito de ecossistema comunicativo, embora soe estranho do ponto de vista das ciências ambientais, é possível a partir da compreensão de uma “ecologia social”, e é uma apropriação conceitual comum ao campo da comunicação, que subsiste sempre na sua transdiciplinaridade.


Algumas Referências Bibliográficas:

  • BELTRAND, Marcelo Vernet (Org.). Manual de Comunicação e Meio Ambiente. São Paulo: Editora Fundação Peirópolis, 2004.
  • BUBER, Martin. Do Diálogo e do Dialógico . São Paulo: Perspectiva, 1982.
  • FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso . São Paulo: Martins Fontes, 1978.
  • FREIRE, Paulo. Extensão ou Comunicação? 12ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
  • Fórum de ONGs Brasileiras. Meio Ambiente e desenvolvimento: uma visão das ONGs e dos movimentos sociais brasileiros. Relatório do Fórum das ONGs brasileiras preparatório para a Conferência da Sociedade Civil sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Rio de Janeiro. 1992.
  • GARCIA CANCLINI, Néstor. Consumidores e Cidadãos, Conflitos Multiculturais de Globalização. Rio de Janeiro: Ed. da UERJ, 1996.
  • GRAMSCI, Antônio. Os Intelectuais e a Organização da Cultura . ...
  • HABERMAS, Juergen. Consciência Moral e Agir Comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.
  • KAPLÚN, Mario. El Comunicador Popular. Buenos Aires: Humanitas,1986.
  • LIMA, Venício A. De Lima. Mídia – Teoria e Política. São Paulo: Editora da Fundação Perseu Abramo, 2001.
  • LUZ, Dioclecio. Trilha apaixonada e bem-humorada do que é e de como fazer Rádios Comunitárias na Intenção de Mudar o Mundo. Brasília: produção independente, 2001.
  • MOLISSON, Bill. Introdução à Permacultura. Brasília: PRODEAGRO, 1996.
  • MORENO, Jacob Levy. Quem Sobreviverá? ...
  • MORIN, Edgar & LE MOIGNE, Jean-Louis. A Inteligência da Complexidade. São Paulo: Peirópolis, 2000.
  • SOARES, Ismar de Oliveira Soares. Educommunication. São Paulo: NCE–ECA/USP. 2004.
  • UNESCO/IBAMA/SEMA-SP. Educação para um Futuro Sustentável – Uma Visão Transdisciplinar para uma Ação Compartilhada . Brasília: Edições IBAMA, 1999.
  • WWF. Redes – Uma Introdução às dinâmicas de conectividade e da auto-organização. Brasília: WWF Brasil, 2003.