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ARQUEOLOGIA EM CONSTRUÇÃO

Obras da Usina Hidrelétrica Santo Antônio revelam mais de 700 mil artefatos que remontam à ocupação da Amazônia há 8 mil anos.

Uma das maiores obras já feitas na Amazônia, a Usina Hidrelétrica Santo Antônio, em operação no Rio Madeira, em Rondônia, impressiona pelos números e pelas denúncias socioambientais. Os investimentos totais chegam a R$ 15,1 bilhões. A usina, quando todas as 44 turbinas estiverem funcionando em 2015 (hoje são apenas 12), vai gerar 3.150 megawatts (MW), o equivalente a cerca de um quinto de Itaipu e volume suficiente para abastecer 11 milhões de residências, ou 40 milhões de pessoas, no país. Mas, quatro anos depois de iniciadas as escavações nos arredores de Porto Velho, descobertas arqueológicas vieram engrossar esses números: foi encontrada uma centena de sítios arqueológicos ao longo de uma área de 100 quilômetros. Antes do empreendimento se instalar sobre eles e inundar a área, arqueólogos coletaram 700 mil artefatos, entre objetos de cerâmica e outros utensílios com pinturas e variados tipos de decoração. É arriscado datar com precisão, mas os pesquisadores acreditam que alguns desses objetos têm cerca de oito mil anos. A pesquisa arqueológica não foi uma iniciativa espontânea do consórcio responsável pela hidrelétrica de Santo Antônio, mas sim uma exigência legal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para o início da construção da usina. A condicionante acabou custando à empresa investimentos da ordem de R$ 30 milhões. Há descobertas de vários períodos da história e da pré-história da Amazônia. Dentre as consideradas mais relevantes estão os artefatos que sugerem uma ocupação contínua desta parte da Amazônia por milhares de anos.

Língua tupi

— É difícil precisar com exatidão a data dos artefatos, mas tudo leva a crer que pertençam a vários períodos — destaca Renato Kipnis, arqueólogo e diretor da Scientia Consultoria Científica, empresa contratada pela hidrelétrica para fazer os registros ao longo do Rio Madeira. Ao que tudo indica, em uma região onde hoje estão partes de Rondônia, Mato Grosso e Bolívia teriam vivido povos ancestrais das atuais tribos falantes da língua tupi. Eram povos nômades. Caçadores que, com o passar do tempo, aprenderam a fazer o manejo de plantas. No início, segundo os arqueólogos responsáveis pelo trabalho, não passariam de algumas dezenas de tribos. Com o tempo, no entanto, passaram a crescer e se espalhar por diferentes regiões do país. O material recolhido ficará em um laboratório a ser construído pela hidrelétrica. O laboratório fará a análise de cada peça, num processo que deve durar anos. Quanto terminada a avaliação, todo o material será enviado à Universidade Federal de Rondônia (UNIR), onde estará disponível para estudantes, arqueólogos e demais especialistas. — É uma região muito rica, mas pouco pesquisada. Havia indicações sobre a existência de bastante material para estudos, mas nada havia sido feito até então. Conseguimos registrar tudo antes do início das operações da usina — garante Kipnis. — Há material suficiente para ser estudado nas próximas décadas. A coleção abre várias perspectivas. Muitas novidades surgirão sobre estes povos.

Terra preta

Um breve estudo, porém, já demonstra que os ocupantes da área foram pioneiros na domesticação de mandioca, amendoim e pupunha. Os alimentos teriam sido essenciais para a população que ali vivia. O indicador seria a terra preta, um tipo de solo escuro, fértil e que apontaria para o manejo agrícola em um passado remoto. — Muito pouco se sabia sobre os tesouros arqueológicos dessa região de Rondônia, apesar de ser uma área muito relevante para pensarmos em ocupações na
Amazônia há milhares de anos. Eurico Miller chegou a tentar descobrir algo, mas sempre sozinho e de maneira pontual — conta Kipnis, fazendo referência ao arqueólogo conhecido no meio pelos trabalhos realizados na década de 70. O projeto também fez o levantamento de gravuras rupestres às margens do Rio Madeira, que banha os estados de Rondônia e Amazonas. Com a ajuda de tecnologia avançada, foi feito um registro digital em 3D de imagens gravadas em diversos pedrais distribuídos em cinco áreas. Algumas figuras têm motivos geométricos. Já outras lembram homens ou animais estilizados. Ao todo, foram coletadas mais de duas mil imagens. Todas elas escaneadas com a ajuda de decalques em papel vegetal e pó de carbono. Quando essas gravuras forem processadas, poderão ser usadas em laboratórios por estudantes e pesquisadores no estudo dos povos que viveram na região, às margens do Rio Madeira, há milhares de anos.

Tecnologia para ver o passado

Cada figura, graças à tecnologia 3D, terá um formato manuseável em diversas direções e maneiras diferentes. Será possível, portanto, conhecer melhor as ocupações, os hábitos e os sistemas simbólicos das populações que habitavam essa parte da
Amazônia brasileira, parte de um capítulo importante da pré-história e da história do país. — As imagens colhidas em campo deverão ser sobrepostas e visíveis em computador. Darão a dimensão exata de como foram gravadas pelos habitantes que nos antecederam na Amazônia. Depois ainda serão disponibilizadas para o público, assim como o monitoramento da Fauna e dos peixes da região — explica Kipnis.

JORNAL O GLOBO

28/05/2013

 




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